Polippo

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Narrativa Fotografica: Semi-Vivo

10.05.2018

Juliana Polippo

Semi-Vivo nasce no perímetro urbano do Bonfim (cidade do Porto, Portugal) sob a premissa de investigar a história local, a partir da matéria orgânica que saúda os lamentos finais dos que aqui viveram.

Fotografia: Juliana Polippo

O 'Cemitério Prado do Repouso’ ao sul da região – foi o ponto de apoio do meu exercício ótico para a disciplina de ‘Projecto’, ministrada pelo Prof.º José Carneiro, associada a grade curricular do Mestrado de ‘Design da Imagem’ da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Diante da proposta de explorar esta região e derivar dela uma narrativa, utilizei o ‘campo de repouso’ como local de estudo fotográfico durantes alguns dias.

Fotografia: Juliana Polippo

O conto territorial ganhou o carácter de arquivo quando comecei a coletar as flores pousadas em frente aos túmulos, e coloca-las em sacos plásticos transparentes e individuais. Os aspectos desta matéria orgânica frente aos nomes, datas e restos de velas denunciavam os tempos da saudade.

Fotografia: Juliana Polippo

Numa caminhada lenta conduzida pela magnitude calma das edificações da morte em seu ‘estado’ abissal, elencava a memória e o que havia se passado entre uns ramos secos e outros mais frescos. E não havia qualquer ambição de bióloga na minha missão, até porque os registros não queriam ter um carácter técnico. A concentração estava em dilatar o diálogo que há nos templos dos pesares; representados aqui pelas flores deixadas sem qualquer possibilidade de pausa.

Fotografia: Juliana Polippo

O desafio desta narrativa foi arcar com a representação do tempo do corpo-orgânico por intermédio das flores, o tempo da luz, o tempo do processo de construção desta narrativa, e o tempo que não é presente em tudo que é considerado morte.

O processo de criação passou pelas seguintes etapas: num dia se vai ao local e faz-se a coleta; depois faz-se a edição do material e os relacionado a narrativa; dois dias depois consegue uma vaga no estúdio de fotografia da Universidade; em poucos minutos corre na vidraçaria e volta com vidro transparente de 3mm embaixo do braço; insiste para que o técnico do laboratório ajude a achatar as amostras - secas e malcheirosas - por entre dois vidros médios de 50cmx50cm; ilumina com (2) canhões de luz de 600Whz o objeto e o posicionado à 45? graus; mede-se à luz com fotômetro que marca 1/125 de velocidade de F11 de obturador. Ajusta a câmera e dispara!

Fotografia: Juliana Polippo

Tenho montado ali uma mesa de luz para recortes que não resulta bem por conta das sombras que insistem em aparecer. A culpa é da falta de peso adequado do vidro para pressionar as flores. Diminuímos então a potência das tochas de luz de “3.0” para “2.0”, fechamos o obturador para F16 e temos um resultado melhor. Arriscamos mais alguns ajustes e fazemos tiros seguidos, deixando que os possíveis erros desta fase fossem resolvidos na pós-produção. Levo o material pra casa num ‘pen drive’, faço recortes necessários no Photoshop e acabo por salvar um registro de cada uma das coletas depois de várias idas e vindas ao laboratório para obter orientações mais precisas do técnico.

Fotografia: Juliana Polippo

Por fim, a apresentação da narrativa “Semi-Vivo” na sala 12B do pavilhão Sul da Universidade, ganhou bons contornos com a solução que encontrei de última hora de imprimir o resultado em transparências que fossem possíveis de serem projetadas em formato A4. Este formato expositivo incorporou a narração de uma maneira natural, como se estas próprias fossem como um ‘cheiro de memória’ que é possível assistir.

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*Formada em 'Produção Multimídia' pela Universidade Santa Cecília em Santos, com especialização em 'Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico' pela Universidade Estadual de Londrina. Ex-discente do programa de mestrado em 'Multimedia' da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Com passagens em estudos integrados nos programas de 'Design da Imagem' da Faculdade de Belas Artes da U.Porto e em 'Comunicação' na Universidade Estadual de Londrina.

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