Polippo

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Entre o clicar e o publicar: editar

27.12.2017

Juliana Polippo

Passados dois anos, e resolvo reeditar o artigo ‘Entre o clicar e o publicar: editar’, exposto na coluna que compunha sobre fotografia no extinto portal Moda Lovers. A ocasião parece propícia. Necessito rever os pontos frouxos daqueles questionamentos, que ainda são os mesmos de hoje, entendendo os pensamentos como parafusos que se apertam aos poucos, conforme a escrita amadurece e as leituras se aprofundam. Não julgo ter conhecimento suficiente pra corrigir-me; apenas acredito que posso propor novas reflexões se conseguir me deslocar da perspectiva anterior.

Então vamos lá, elegi este texto como exercício, porque tem como base a entrevista que fiz com Fernanda Magalhães, a orientadora do meu estudo científico “A estética da Lomografia”, defendido na especialização em “Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico” na Universidade Estadual de Londrina, e que foi fundamental no desenvolvendo destas noções. Desde que elaboramos este esboço, que traçava o paralelo histórico entre a estética das imagens das câmeras lomográficas e o Instagram, nunca mais deixamos de nos encontrar casualmente pra falar de imagem digital e suas implicações.

Antes de mais nada, pra quem desconhece Fernanda Magalhães, ela é uma artista visual, fotógrafa e também ‘performer’, não só porque faz intervenções de nu artístico e autorretratos inspirados, mas porque se coloca na discussão que levanta desde o seu projeto "Auto retrato no RJ", de 1993, que já "problematizava discursos do controle da subjetividade e do corpo". Seguido por duas outras pesquisas, uma sendo "A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia", de 1995, e a outra "Classificações Científicas da Obesidade", de 1997, onde pontua temáticas acerca dos padrões, a imposição da ordem sexual, as normas de beleza e a inscrição da diferença pelo desejo e afeto, como critica ao discurso de “aceitação” que os médicos - autoridade cientifica – utilizam para fazer disso a regra de normatização dos corpos. Aos interessados por estes pleitos, recomendo buscar o livro ‘Corpo re-construção: ação ritual performance’, desta autora, editado em 2010 pela Travessa Editores de Curitiba.

série 3x4 - Juliana Polippo

A entrevista aconteceu presencialmente em Londrina – no interior do estado do Paraná, Brasil – depois de um chá da tarde delicioso na casa de Fernanda, acarinhada pela presença de Karen Debértolis a jornalista, escritora e também companheira fiel de prosa. Falamos de uma porção de coisas como: ‘expor’, ‘editar’, ‘publicar’, ‘tempo’ e ‘era digital’, e procurei reunir aqui com as lembranças e rascunhos que restaram, a reflexão que se construiu naquele dia por meio de perguntas e respostas; embora me recorde de ter abandonado este protocolo logo no início da conversa, julgando que isto poderia comprometer a essência informal das nossas discussões habituais.

Juliana: O tempo que é um dos fatores fundamentais da fotografia, tem sido hoje ‘escasso’, com toda esta aceleração no ritmo das atividades cotidianas - e talvez por isto - dificilmente demorasse a observar uma imagem. O olhar atual corre sem pausa por uma ‘série’ de informações na mesma velocidade que desliza a tela. Você sente que isso desvalorizou a fotografia?

Fernanda:Antigamente nós fazíamos copiões, revelávamos, editávamos e só depois ampliávamos. Havia o tempo de pensar aquela imagem. Hoje é direto na redes sociais, ninguém mais pensa entre o clicar e o publicar, esta é a diferença. A tecnologia vem sendo imposta brutalmente a todos nós, sem podermos escolher e as pessoas não tem consciência disso.”, raciocina em voz alta como percebe as alterações no convívio social com a inserção dos meios tecnológicos e como isto se reflete na fotografia. “Eu me lembro bem quando começou a chegar caixas e caixas de computadores na Universidade. De repente tudo tinha que ser feito naquilo, mas ninguém sabia mexer, era uma loucura.” Risos.

Juliana: Você acha que o formato ‘exposição’ é uma forma de tentar resgatar estes olhares atenciosos?

Fernanda: “Sim. O fato de não se ampliar já é uma desatenção, a cópia é importante. Porque na edição se continua pensando a imagem. E este tipo de cuidado faz com que a foto seja outra no final. A montagem faz o artista mergulhar na imagem, com algum pensamento crítico para sair daquela aparência primeira. E imagine que meus alunos até desconhecem o termo ‘editar’, acham que é a mesma coisa que tratar uma imagem. Risos! Editar é selecionar, pensar, reorganizar, significar, e se sentir necessidade fazer algum tipo de tratamento para ampliação.”

Precisamos ter consciência fotográfica, dizia Eu à Ela, e em alguns artigos feitos nos primórdios da coluna. Anulo esta ideia e anuncio que fui vencida por mim mesma, no passo que percebi uma militância incongruente contra a ‘imagem’ e o ‘tempo’ que não temos nesta era digital. A ideia da entrevista com Fernanda surgiu quando repensava os atos de criação - não apenas fotográficos – pra dar mais consistência as estas publicações, e sinto que avancei pouco, deixando de pensar que outras plataformas surgiram e temos agora uma infinidade de galerias fotográficas e banco de imagens com diversos tipos de ‘curadoria’ e ‘processo de criação’.

série 3x4 - Juliana Polippo

Permitam-me uma digressão. De lá pra cá, me dispus a uma experiência de isenção tecnológica parcial, onde me abstive ao máximo das redes sociais que tinham uma troca instantânea de imagens e textos, como Instagram, Facebook, Whatsapp e até mesmo deixei de ter um Smartphone, pra ver o que isto suscitava em Mim e no meu círculo social. Foi e ainda é, uma renuncia servida de críticas dos amigos, estranhamento familiar e uma certa transformação na relação com a imagem do Outro. Veja, passei a não ter mais interferência de nenhuma espécie do cotidiano de todos que conheço, a não ser quando estes se colocam em minha presença física. Não sei quando vão ao shopping, ao cinema, a uma viagem, nem quem estão namorando ou saindo nos últimos tempos. Não tem Eles também notícias minhas a não ser por email. Estou sendo radical, segundo a visão de alguns.

Ao investigar os planos espaciais da imagem neste tipo de suporte, e considerar o tempo como fator fundamental, passei a perceber que o suporte não marca o tempo de agora, nem o de ontem, nem o do espaço, nem os das redes, e que nem ao menos sabe dizer sozinho que fuso horário corresponde. Os suportes que me refiro, são tanto câmeras fotográficas, quanto plataformas de compartilhamento que recebem estes conteúdos de diferentes tipos de dispositivos em tempos aleatórios. Num tempo inorgânico. Num tempo que corre sem começo e sem fim. Um tempo incontável e infinito. Ou melhor, um tempo que se reflete como apresenta Vinicius Honesko no livro ‘O paradigma do tempo - Walter Benjamin e messianismo em Giorgio Agamben’:

“Se toda cultura é uma forma de fazer experiência do tempo, como pensar, portanto” o, algo novo – uma nova concepção de direito, um agir revolucionário, uma nova cultura, um novo mundo – sem antes repensar a concepção de tempo que àquela experiência sobeja e condiciona?1 (E é bom lembrar – em sentido messiânico – o que disse Benjamin: “Ninguém disse, de fato, que as deformações que um dia o Messias virá a corrigir são apenas deformações de nosso espaço. São também deformações de nosso tempo.”2) Uma vez atados a uma ideia tradicional de tempo (uma compreensão de tempo vazio, homogêneo e uniforme que deve ser preenchido pelos atos humanos), não resta muito senão a repetição do previsível e a sedução triste do totalitarismo3.” (p. 15)

A partir destas e outras leituras, venho construindo percepções e seguido as falas de Fernanda pra repensar o que há entre o ‘clicar’ e o ‘publicar’, principalmente nos pontos em que o ‘tempo’ se encontrar com a ‘edição’. No momento, posso dizer que o afastamento dos ruídos das redes, tem me feito degustar a câmera fotográfica esquecida no armário sob um tempo aperiódico, onde fotografo sem responder ao imediatismo da publicação, transfiro as imagens para o computador sem dia certo, as complemento com algum tratamento quando calha e as armazenado para fins futuros desta sessão “/MAG”. A plataforma digital Polippo Art Shop, onde propositalmente hospedo este projecto, é uma tentativa conveniente de se afastar do contato direto com algoritmos de exibição das redes sociais, e utilizá-los apenas como meios de conexões possíveis.

série 3x4 - Juliana Polippo

É pena a conversa com Fernanda não ter persistido pela atual distância que nos separa, mas continuo estudando cibercultura e tão mais agora, os mecanismos e funcionamentos dos ‘arquivos digitais’ como saída prática e teórica que pode elucidar os caminhos desta exploração pelos processos da imagem. Numa leitura de artigos relacionados ao tema, encontrei o acervo digital da pesquisadora Alise Tifentale, uma artista e historiadora fotográfica, escritora, editora, curadora ocasional e educadora baseada na cidade de Nova York, que tem o foco de investigação nas discussões globais da fotografia pós-guerra e o compartilhamento de imagens nas médias sociais atuais, como o Instagram. E faço esta cruza bibliográfica, porque ironicamente ela tem um artigo intitulado How to Stop Worrying and Love the Computer - disponível em pdf – onde faz considerações sobre a relação entre homem e máquina na produção artística do século XXI, por intermédio da narrativa da exposição I am your servant, I am your worker.

A exposição apresentada por ela no artigo, é uma seleção de trabalhos realizados depois de 2000, baseados em software, hardware e redes de computadores. Nesta exibição a "máquina" é entendida como uma variedade de dispositivos, que por sua vez, são as "fábricas" do século XXI, máquinas de trabalho-lazer universais, objetos de desejo do consumidor e, ao mesmo tempo, instrumentos finais de exploração, controle e vigilância, que suscitam sintomas e alterações na produção artística. Logo nas primeiras páginas do work-in-process descrito em ‘How to Stop Worrying and Love the Computer’, a autora apresenta pontos chaves, que identifico como o centro no meu estudo. São estes: “O corpo que desaparece”, “A visão da máquina” e o “O toque humano”, melhor contextualizados no trecho abaixo:

“ The contemporary works in the exhibition are grouped in three thematic clusters that offer a non-linear narrative focusing on the interaction between man and machine from different perspectives. In “The vanishing body”, individual images of the human body dis-appear to give place to aggregate images showing over-arching patterns through space and time. “The machine vision” explores some of the aspects of automated image recognition and surveillance systems. Works in “The human touch” address direct and physical interaction between spectators and the machines that they activate.” (p. 02)

Estes enunciados denunciam a forma dos ‘novos médias’ se relacionarem. Não somente enquanto ‘modo-de-relação’, mas também como ‘módulo-relacionado’. Ou seja, estes agora ‘representam’ e ‘apresentam’ à diferentes conjuntos de ‘homem-máquina’, transfigurações de um ‘corpo’ e ‘outro.’ A seguir a lógica do “meio é a mensagem”, esta relação que se estabelece ‘entre’ o meio e o corpo-outro – utilizando a automatização da imagens como mensagem – pode ser examinada de diferentes perspectivas, a começar pelo uso do corpo humano (ou suas representações) como fonte de dados a serem analisados e interpretados por computadores; o papel e as funções do artista como produtor na economia digital; a relação muitas vezes confusa entre trabalho e lazer, a produção e o consumo, a arte e a ciência e etc. Alise Tifentale complementa em partes esta visão, quando diz que:

“For instance, social networks and image-sharing platforms together with the general availability of image-making apparatuses such as smartphones contribute to what can be seen as the ultimate democratisation of image-making. “If the teleological art of the past found its meaning in recognition by the individual, then the art of the future will find such meaning in recognition by society. In a democratic art all form must be socially justified,” Tarabukin wrote in 1923.” (p. 10)

Ainda acho cedo para conclusões, por isto me disponho a voltar aqui mais vezes pra continuar a praticar o raciocínio crítico, com novas referencias, conversas, fatos e experimentos mais consistentes ao redor desta problemática. E com o passar do tempo, pretendo conseguir elencar aos interessados em cultura digital as facetas da produção e do consumo de imagens, sem tentar classificá-la como vilã ou mocinha. Também não quero que esta seja omissa, até porque é um fato que esta adquire mais poder, a medida que forma concepções e causa alterações nos contextos em que é produzida e/ou introduzida.

*Mestranda em ‘Design da Imagem’ pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (PT) e especialista em ‘Fotografia: Práxis e Discurso pela UEL - Universidade Estadual de Londrina (BRA)’ e graduada em ‘Produção Multimídia’ pela Universidade Santa Cecília (BRA). E-mail: art@polippo.com

Notas de rodapé

. 1 Cf. GIVONE, Sergio. Il Bibliotecario di Leibniz. Filosofia e Romanzo. Torino: Einaudi, 2005.

. 2 Cf. AGAMBEN, Giorgio. Infância e História. Destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: UFMG, 2005. Tradução: Henrique Burigo. p.111.

. 3 BENJAMIN, Walter. A Modernidade e os Modernos. Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo Universitário, 1975. Tradução: Heidrun Krieger Mendes Silva; Arlete de Brito; Tânia Jatobá. p. 101.

Referência

HONESKO, Vinícius Nicastro. O Paradigma do Tempo: Walter Benjamin e Messianismo em Giorgio Agamben. Coordenação João C. Galvão Jr., Renato Nunes Bitten- court, Willis Santiago Guerra Filho. – Florianópolis : Ed. do Autor, 2009. – (Revista filosófica política do direito AGON ; V. 3)

MAGALHÃES, Fernanda. Corpo re-construção: ação ritual performance. 1. ed. Curitiba: Travessa Editores, 2010.

T?FENT?LE, Alise. How to Stop Worrying and Love the Computer: Work-in-progress: Introduction to the exhibition I am your servant, I am your worker for the Amie and Tony James Gallery, New York. Disponível em: . Acesso em: 27 dez. 2017.

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