Polippo

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Encontro com as Artes, a Luta, os Saberes e os Sabores da AQCC

06.02.2018

Juliana Polippo

Os caminhos que me levaram a Conceição das Crioulas foram sinuosos, longínquos e instintivos. Quando digo “instintivos”, fica parecendo que sabia exatamente o rumo que deveria tomar pra chegar lá, mas isto não é verdade. Nos quase 4.000km rodados, o único guia que mantive ligado foi o desejo de “conhecer”. E quando digo “conhecer”, também não quero que fique parecendo que era só curiosidade da minha parte. Eu uma mera estudante brasileira, na aventura transatlântica de carregar infinitas indagações na mochila. Sob a premissa de somar sonhos para futuras realidades no 'Encontro com as Artes, a Luta, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas', como tantos que aqui já vos relataram de outras formas.

A poucos meses incorporada no grupo ‘Movimento Intercultural IDENTIDADES’, ajudando nas questões ‘multimédia’ que podia, fui convidada a visitar a comunidade pela primeira vez. Passei dias a comtemplar sensações... Noites a ansiar. Embora tivesse no fundo no fundo, calma no que haveria de ser. Desembarquei no Brasil um mês antes de viajar a Pernambuco, e aproveitei o tempo para rever alguns amigos, visitar familiares, saborear meus pratos favoritos e contemplar um inverno mais bondoso. Me instalei em São Paulo - no apartamento de uma amiga - onde meditei entre grades à espera da minha companheira de viagem – Maria Portela (pesquisadora multimédia, FEUP) que chegaria no Aeroporto de Guarulhos (GRU), no dia 08 de Julho às 07:55am vinda de Portugal também para o ‘Encontro’. De um domingo à outro, tinha a dupla missão: atravessar parte do mapa do Brasil numa linha quase reta até Salgueiro, PE, sem deixar de mostrar fatos e belezas em exatos 7 dias.

Assista Making Of - Expedição VER'EDA'17

Apresentei a maior cidade do país em pouco mais de 24h, e fiz questão que isso acontecesse mesmo com o tempo contado que tínhamos, porque acreditava que ali ela entenderia logo que no Brasil somos feitos de contrastes. Pra isto elaborei um roteiro passando pelo que considerava ‘característico’ e não ‘folclórico’. Caímos na estrada no dia seguinte a chegada dela sentido a Minas Gerais, e contávamos apenas com dois “Guias Quatro Rodas” impressos em 2004 e um GPS desatualizado, que logo foi descartado por falta de credibilidade. A primeira parada era Ouro Preto, uma das principais localizações do ciclo do ouro, também conhecida por sua arquitetura colonial. À Mim fazia sentindo atravessar caminhos comuns ao da colonização, afim de entender as suas demarcações no tempo. Então lá fomos nós, a dupla luso-brasileira numa investigação experimental que buscava decifrar mapas, direções, moedas, costumes, dialetos, gostos musicais e tudo mais que passasse pela janela do carro.

Ouro Preto, MG'17 • foto: J. Polippo

Continuamos. Era chegada a hora de conhecer o ‘Instituto Inhotim’, um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina. A área de visitação beira os 100ha e compreende jardins, galerias, edificações e fragmentos de mata, lagos ornamentais, e um jardim botânico com 4.300 espécies em cultivo.

M. Portela • Inhotim, MG'17 • foto: J. Polippo

Outra vez o tempo estava contra nós e precisamos ser certeiras no que gostaríamos de ver. Fomos escolhendo a dedo no guia de bolso, os artistas que nos vinham a cabeça e assim fomos perseguindo obras por entre os bosques do parque. Tivemos surpresas, decepções e alguns tipos mais de inquietações para a nossa coleção. A esta altura o diário de viagem já andava recheado, mas nosso destino final ainda passava longe. Chegava o dia de acelerar mais fundo pra abarcar na Bahia. Maria tratava de me cobrar uma tal ‘moqueca de peixe’ bem servida que ouvirá dizer, enquanto nos perdíamos para chegar no vilarejo de Palmeiras. Localizado no centro do estado, o município compreende ‘O Parque Nacional da Chapada Diamantina’. Nos instalamos por lá pouco mais de 48h pra explorar este reduto de beleza natural do país.

vale do capão, BA'17 • foto: J. Polippo

vale do capão, BA'17 • foto: J. Polippo

As estradas ficavam cada vez menos sinalizadas, os postos de gasolina cada vez mais espaçados, o mapa confuso e as informações mais incongruentes. Já tínhamos algum cansaço dos longos dias na estrada e a curiosidade a esta altura nos intrigava mais. Passamos o domingo a especular de tempos em tempos como haveria de ser aquilo que nos dispúnhamos habitar. E confesso que por alguns momentos, condenei a minha própria escolha de fazer esta rota, ao me ver diante das inúmeras questões que este percurso suscitaram em Maria. E que acabavam sendo minhas também, a medida que eram irrespondíveis. Pra não deixá-la a mercê de um silêncio profundo, passei a resumir a grande maioria das respostas à: “Isto é o Brasil! E o pouco que funcionava bem por aqui agora corre riscos”. Descontente com esta explicação rasa, voltava a pesar: “Se tivesse ido pela costa, ao menos ela teria achado tudo bonito e pronto”. Mas lamentos não adiantavam, o traço já estava feito e precisávamos segui-lo.

cachoeira da fumaça • vale do capão, BA'17 • foto: J. Polippo

Cruzamos a fronteira de mais um estado e finalmente chegamos em Pernambuco por volta de 5h da tarde. Salgueiro era o ponto que almejávamos no mapa desde São Paulo. Ao avistar a tal civilização, paramos num posto como de costume e perguntamos ao frentista sobre como chegar a ‘Conceição das Crioulas’. Ele desconhecia, mas uma senhora de meia-idade acompanhada da filha no carro ao lado ouviu nossa conversa, e ofereceu nos guiar até o entroncamento mais próximo de lá. Não nos restava outra alternativa a não ser confiar nela. Após alguns metros dali, entramos numa estrada de cascalhos em direção a comunidade. Olhava ao redor e aquilo não parecia o sertão que havia suposto. Era mais ameno do que na minha imaginação e não muito diferente do que tinha visto pra trás. Talvez algo mudasse drasticamente até lá. Mas não foi bem assim... Alcançamos o território Quilombola com o entardecer no horizonte, mas ainda precisávamos achar todos do ‘Encontro’, pois sabíamos que as programações já haviam começado a poucas horas. Viramos em duas ruas mal traçadas, passamos um quebra-molas alto feito de terra, vimos algumas casas de cimento batido e fizemos uma aterrissagem cabal na porta da casa da AQCC.

AQCC • Salgueiro, PE'17 • foto: J. Polippo

Fomos recebidas aos abraços por todos que ali estavam. As apresentações iniciais se seguiam, enquanto as equipes colaborativas da troca dos Sabores terminavam seus feitos. Jantamos cedo com fartura e prontamente apresentadas a nossa anfitriã 'Isinha' (secretária e professora da Escola da Comunidade de 'Conceição das Crioulas'), que tratou de nos acompanhar a porta de sua casa, para que Eu e Maria pudéssemos ali estar por uma semana sem determinar regras, nem pedir nada em troca. Nós não fazíamos ideia das instalações oferecidas, mas isto não importava de todo. Pra quem pensava que dormiria no carro ou numa barraca ao relento, toda aquela infraestrutura de cama, ventilador e energia elétrica parecia luxuosa demais pra proposta. Agradecemos imediatamente a acolhida e nos retiramos pra preparar os últimos detalhes da aula que ministraríamos no dia seguinte.

J. Polippo, Isinha (anfitriã) e M. Portela • AQCC • Salgueiro, PE'17

A primeira noite não foi de todo mal, salvo pelo rosto cheio de picadas de mosquitos e pernilongos que se demarcaram na minha pele na manhã seguinte. Tratei de não me importar com estas questões estéticas, até porque não havia muito o que fazer. As razões que me levaram ali eram outras e a ânsia por conhecer os curiosos por Web da Comunidade, era um pouco maior pra mim do que isso. Sabíamos apenas que parte da comissão da AQCC participaria, até porque a premissa sempre fora a de transmitirmos o pouco do que tínhamos descobertos sobre programação em HTML, CSS e JS nos últimos tempos à Elas.

Havíamos passado os meses antecessores ao ‘Encontro’ a preparar uma plataforma digital para que a ‘Associação Quilombola Conceição das Crioulas’ alcançasse voz num dos maiores veículos de comunicação da atualidade, de um modo autónomo e consciente. A missão parecia justa. Se hoje há a nosso favor inúmeras ferramentas tecnológicas, capazes de alavancar causas, projetos e ideias ao redor do mundo, porque não combiná-las de modo inteligente, pra que pudesse atender as necessidades específicas dessa comunidade. A cada reunião semanal do grupo IDENTIDADES, parecia que uma peça deste quebra-cabeça se ligava na outra, ao passo que nos aprofundávamos nas questões de usabilidade digital, segundo uma ótica que se preocupava em manter o carácter político e social do local.

Em meios aos atropelos acadêmicos e pessoais, me empenhei ao máximo para estudar todos os autores que pudessem dizer coisas a calçar toda esta malha de questionamentos que havia se criada em torno de mim e que precisavam ser convertidos em soluções práticas até chegar lá. Claro, sabia que muito disso aconteceria de modo orgânico, mas o que não poderia imaginar é que teria modificações perceptivas tão prontamente. Tudo começou a parecer imagético demais, como se conhecesse aquele cenário exatamente como virá na televisão a anos atrás.

As buscas por explicações para os ‘Processos mentais da imagem no corpo-outro’, ficaram aguçadas e frenéticas. Meus instintos cobravam presença, mas só gostava de saber permanecer ali sem qualquer tipo de juízo. Lembro de ter a preocupação de neutralizar-me, por isto tentei interferir o mínimo possível no espaço. Sem deixar de investigar as medidas deste “Corpo-Eu” no “Corpo-Outro”, que se via entre porcos, galinhas, burros e pessoas apenas como um “caminho”.

Casa da Juventude AQCC • Salgueiro, PE'17 • foto: J. Polippo

Na caminhada até a sala que nos destinara, tentava entender o que propriamente ‘Eu’, dotada somente de mim, poderia fazer nos próximos dias para que algo daquilo tudo transmutasse de alguma maneira nos alunos. Não parecia ter a formula perfeita em mãos, e estava longe de saber exatamente se era assim que habitualmente se fazia. Enquanto todos estes melindres passavam por mim, Maria e Eu, cruzámos a manhã de segunda-feira as buscas de chaves, salas, computadores, alunos e já passada às 10am nos alojamos na ‘Associação Casa da Juventude’, graças a ajuda de Amando, nosso primeiro adepto e também coordenador do local. Entre um trajeto e outro, nos contou que atuava como designer gráfico de vários projetos ligados a AQCC, o que me animou, pois isto garantia que sabia usar minimamente algum software de edição de imagem. E este fato ajudaria e muito na compreensão do conteúdo que pensávamos em transmitir.

Vale ressaltar que não detínhamos noção alguma sobre o nível de conhecimento dos alunos nas áreas afins a Web e/ou em qualquer outro meio digital até este momento. As outras duas participantes confirmadas tiveram desistência, por conta de estarem envolvidas na organização do evento, o que as impossibilitava de frequentar o turno de 4h/dia. Com apenas um aluno, iniciamos oficialmente a ‘oficina de Web’. No final da aula, perguntamos se não conhecia mais ninguém na comunidade que tivesse interesse em aprender esta linguagem. Ele disse-nos que tentaria convidar alguns amigos. Não demorou muito e ainda no intervalo da nossa refeição no salão da ‘Casa da Comunidade’, animado e prestativo nos abortou questionando sobre como seria feito com o conteúdo já dado, se entrassem agora mais pessoas na oficina. Dissemos que repassaríamos e ficamos felizes de saber que possivelmente teríamos mais partidários.

oficina de web • Casa da Juventude • AQCC, Salgueiro, PE'17

Retornamos ao local destinado às aulas no período da tarde, e nossa turma tinha mesmo aumentado. Tínhamos agora 5 alunos, chegando a ter um pico de 6, não fosse por mais outra desistência pelo mesmo motivo das anteriores. A faixa etária média se firmou entre 16 à 21 anos, em sua maioria do sexo masculino. Todas as desistentes tinham em comum o perfil de serem mulheres com mais de 35 anos. O que ficou visto pra mim, ao menos nesta ocasião, que os jovens tiveram mais facilidade, curiosidade e tempo para aprender a desempenhar este tipo de tarefa. Então por que não incentivá-los? Pronto a sala estava cheia! Que alegria. Era hora de começar outra vez... Enchi o peito e lembro bem de tentar usar um tom de voz que fosse de entusiasmo e não de ‘fórmula’, porque qualquer maneira equivocada de se colocar poderia criar um tipo de desinteresse instantâneo, que nos faria ficar sem alunos outra vez no dia seguinte. Toda aquela matéria era técnica demais e sabíamos bem disso.

“O que criaria neles algum comprometimento neste tipo de conteúdo?” - recordo bem de pensar todo tempo nisso. Enquanto o desafio da língua também pairava sob nossas cabeças como uma realidade. Tínhamos ali a linguagem HTML, CSS e JS em formatos de sintaxes (códigos escritos em inglês), o português de Maria, o meu português brasileiro e os dialetos locais a serviço. E acredito que isto só não chegou a ser propriamente um problema, porque todos pareciam gostar de brincar de sinónimos, o que acabou dinamizando a sala de aula. Me sentia mais próxima aos alunos à medida que tentávamos quebrar estas barreiras pessoais para encontrar um ‘termo-em-comum’, que todos fossem capazes de entender. Assim ao longo dos dias, um laço foi se construindo paralelo ao conteúdo, que por sua vez, se tornava mais denso e detalhado. O equilíbrio entre este dois eixos centrais precisavam ser encontrados minuto à minuto para que atenção do grupo não se perdesse. Pra isto, utilizamos uma abordagem que focava em acompanhar o desempenho um à um. Os tempos destinados aos exercícios ajudavam a sanar dúvidas e fixar detalhes importantes que poderiam vir a ser esquecidos com facilidade certamente, se assim não fosse feito.

AQCC • Salgueiro, PE'17 • foto: J. Polippo

Era nítido que os alunos tinham “vãos” que precisavam ser preenchido antes do desfecho que pretendíamos: conceber uma segunda versão do layout do website da comunidade, feita apenas por eles em sua totalidade. O prazo era curto, o que nos fazia priorizar novamente. A cada fim de aula, Maria e Eu conversávamos sobre o desempenho de cada um deles, a atuação como um todo, as nossas sensações pessoais diante do quadro geral e os caminhos que seguiríamos na próxima etapa. Mudamos o rumo das coisas por uma ou duas vezes, e acrescentamos outros elementos não previstos em nosso conteúdo programático, pra que eles conseguissem apresentar ao menos uma versão básica e funcional da proposta. Formando uma única equipe, distribuíram tarefas e etapas entre si para que na data-limite tivessem criado as páginas dos assuntos ‘História da Comunidade’, ‘Pontos Turísticos’, ‘Festas’ e ‘Contatos’ – sessões estas escolhidas por eles próprios – e que os conteúdos destas fossem preenchidos e dispostos visualmente. Enquanto um selecionava imagens, outro recortava na medida exata. Um coletava textos e o outro reunia o todo material necessário. Utilizando a ferramenta de compartilhamento em nuvem (Google Drive), também aprendida em sala de aula, produziram em simultâneo a programação da página, de forma a empregar todo conhecimento que acabavam de adquirir sobre linguagem Web. Naquele dia a aula acabou por volta de 19h40, passando o horário por conta da extensão do exercício que tomara mais tempo do que previsto. Nos dirigimos ao jantar todos juntos numa conversa que já suscitava um tom de saudosismo. A ‘oficina de Web’ estava oficialmente concluída.

AQCC • Salgueiro, PE'17 • foto: J. Polippo

O dia que se seguiria era o último, e isto representava que ainda deveríamos reunir todo material pra exibir os resultados numa apresentação que aconteceria na próxima manhã, onde todos os envolvidos do ‘Encontro’ fariam o mesmo. Além disso, contávamos com a lição extra de subir as ‘Notícias’ produzidas e revisadas na ‘oficina de Escrita’ na plataforma digital que preparamos meses antes. Nesta noite o jornal e todo o material de comunicação do evento também deveria ser fechado, pois isto marcaria o encerramento oficial desta expedição. Com esta tripla missão, seguimos para a ‘Escola da Comunidade’ para encontrar a outra parte da equipe responsável por esta tarefa. Trabalhamos todos arduamente madrugada a dentro pra acabar tudo a tempo. Lembro de ter me afastado do computador por volta de duas e meia da manhã, deixando Maria sozinha no que restava pra fazer. Meus olhos estavam pregados ao ponto de se fecharem sozinhos. O despertador tocou poucas horas depois, e precisei de um chamado mais forte da minha companheira de quarto pra conseguir realmente me levantar. O cansaço tomava conta de todas as partes de mim, e confesso que fui arrastada pra tal apresentação. Era inegável que reconhecia o valor positivo de toda esta carga, mas o que eu precisava mesmo era de um banho. A manhã acolheu agradecimentos, relatos breves, exibições de curtas-metragens, exposição de esculturas de cerâmica, desenhos, apresentação de teatro, choros, palmas e o lançamento do website da AQCC, entre outras atividades combinadas e muito correu bem.

M. Portela • AQCC • Salgueiro, PE'17 • foto: J. Polippo

Ufa! Recebemos alguns elogios pelo trabalho feito e isto me deixou satisfeita. Nada parecia mais compensador do que esta vivência em sua inteireza. Embora não considerasse ter qualquer tipo de certeza ou resposta, sabia que a hora de partir estava próxima, e que talvez nunca chegasse a concluir algo sobre isso tudo que vira e vivera ali nestes dias. Antes de deixá-los, era preciso repassar os acessos ao ‘painel de controle’ do website ao Amando e o ‘layout’ do jornal para Márcia. O carro já estava carregado, ‘Isinha’ com sua chave de casa em mãos e todos avisados sobre nossa partida. Entramos no carro por volta de 16h e o sentido agora era Juazeiro do Norte, CE, - 120km dali - onde deveria deixar a minha companheira de viagem no aeroporto mais próximo para que voltasse pra casa.

Ao nos afastar poucos metros da ‘Casa da Comunidade’, de onde saíamos, uma de nossas alunas apareceu nos seguindo de moto com uma pessoa na garupa. Ao avistá-las, diminui a aceleração do carro, abaixei o vidro e ela foi logo me pedindo que levasse sua amiga a Salgueiro se possível. Respondi que sim! Ela pediu que voltássemos então pra que pegasse suas coisas. Dei meia volta e parei em frente a praça até que retornasse com sua mochila. Imediatamente ‘Isinha’ reapareceu, e disse que era sua prima a moça que pedia a carona. Eu então levando as ressalvas de Maria ao cabo, perguntei se não havia mesmo problema levá-la. Ela garantiu que não. “Ótimo! Vamos então?” disse. Aproveitamos para tirar algumas fotografias, dar mais alguns abraços, antes de partirmos novamente.

J. Polippo, Raysla Kosttah e M. Portela • Salgueiro, PE'17

Agora tinha uma nova companheira, o que acabara por provocar em mim uma curiosidade de entrevistadora. Tinha muitas questões a perguntar a jovem de 17 anos sentada no banco de trás do carro, mas deixei que ela abordasse qualquer assunto primeiro. E aos poucos foi nos contando sua trajetória na comunidade, seus motivos para mudar-se para a cidade e alguns fatos sobre a região. Um ponto da conversa em específico se cravejou em mim, por não conseguir dizer que consigo realojá-lo num canto da minha consciência que o entenda. O instante aconteceu quando perguntei sobre ‘água encanada’ e ela respondeu-me: “uma tal de água já passou aqui uma vez, mas acabou rápido porque quebraram todos os canos”. Esta fatídica fala se demarcou e se debate em mim até hoje. “Como assim uma tal de água já passou aqui um dia?”, repetia em silêncio. Retruquei prontamente apenas querendo saber quem eram os destruidores e ela me disse que era as próprias pessoas da região, que tentavam desviar água por não terem recebido o mesmo beneficio que os outros. Questionei quanto tempo fazia isto, mas ela não soube me dizer, o que ficou parecendo que fazia muito. Depois disso fiquei em silêncio pelo resto do caminho. Nem sabia o que pensar e não queria ser hipócrita em qualquer coisa que dissesse. Definitivamente aquela não era minha realidade e precisava pensar muito antes de vir a entender tudo que tinham vividos eles por toda vida e eu nos dias anteriores.

A deixamos no endereço indicado e seguimos. Nos perdemos e muito neste trecho e chegamos 3h depois do suposto completamente exaustas. Dormimos e no outro dia separei-me de Maria no aeroporto de Juazeiro do Norte, por volta de 9h40am e rapidamente tratei de me colocar a descer todo aquele Brasil que havia subido.

O meu destino final ainda era desconhecido até pra mim, e só sabia que haveria de chegar a Feira de Santana ainda naquele dia. Durante todo percurso da viagem, fiz pequenos recortes imagéticos, os quais deram origem a série ‘VEREDA’ – que intitula também este texto – afim de refletir e deglutinar por meios delas, visões que palavras como estas não puderam alcançar. E se assim vos faço este relato com tantos detalhes do percurso, é por supor que toda esta marcha de “Luta” só faz sentido se considerarmos os “caminhos”.

Veja VER’EDA a série fotográfica completa de J. Polippo, produzida nesta expedição pelo Brasil no ano de 2017.

*Mestranda em ‘Design da Imagem’ pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (PT) e especialista em ‘Fotografia: Práxis e Discurso pela UEL - Universidade Estadual de Londrina (BRA)’ e graduada em ‘Produção Multimídia’ pela Universidade Santa Cecília (BRA). E-mail: art@polippo.com

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